Por Carolina Torquato

REENCONTRO A PÓS

Carolina Torquato é advogada, mestra em direito constitucional público e contista. Escreve desde adolescente e possui alguns contos publicados. Atualmente, divide-se entre o exercício da advocacia, a edição de seu primeiro livro e algazarras com seu filho Nando.  

carolinatorquatomaia@gmail.com

Fazia quase seis meses que não se viam e no derradeiro encontro sequer se despediram, tampouco conversaram sobre o fim da relação. Já haviam terminado diversas vezes, mas não conseguiam deixar de se falar, encontrar e amar culposamente abatidos pela fraqueza do amor impossível, desses que carregamos por toda a vida, não por escolha, quem sabe pela incerteza de viver o essencial para transformar a existência em dádiva divina. Num passado recente, ainda eram nítidos os sonhos, não existiam reflexos do canto de adeus que extinguiu certezas. Quando se olhavam sentiam espécie de mudez, como se a língua que conversassem não fosse falada por mais ninguém e emitisse sonoridade de outros tempos, distante e vagarosa, quase desaparecida, causando a impressão que era permitido reinventar a própria realidade. Por diversas vezes se prepararam para a separação, como se fosse admissível ensaiar lágrimas ritmadas pelo espírito pesado que vinha aos olhos, como sensação infinita de pós-guerra. Não podiam antever o futuro, sequer previram o vírus, o confinamento e todo o resto. Se porventura, assim fosse possível, teriam se despedido no último encontro? Amado em ritmo marcado pelo desejo e respirações a crivarem o ar amontoado de partículas suspensas? As recordações esmaeciam-se no tempo, a acidez dos dois cedia lugar ao que tinha sido verdadeiramente vivido, experiências que nada ou ninguém conseguiria condenar ao esquecimento. E momentos assim tinham de sobra, como a noite chuvosa que passaram ouvindo o vento uivando pela fresta da janela com os corpos nus colados e aquecidos apenas por fino lençol. Estavam feridos, cansados e abatidos. A pandemia exauriu os sentidos não somente dos dois, mas de quase todos, incapazes de temer e compreender o inimigo invisível. Os dias eram longos, iguais, incertos e tristes, mas chegaram ao fim. Poderiam se encontrar novamente. Marcaram encontro na praça arborizada por enormes castanheiras, com bancos de concreto e antigo viveiro no centro. De longe, observaram-se caminhando. Os passos aceleraram-se: um abraço! Conferiram mutuamente o cheiro um do outro e conversaram observando o viveiro enquanto o vento ouriçava os poros da pele.

- Eu me senti assim durante a pandemia.

- Assim como?

- Como esses pássaros no viveiro, presa, tolhida. Não sei por que eles ainda cantam... Eu não cantaria mais. Acho que eles não sabem que estão presos, já se acostumaram. Talvez, seja mais fácil ser pássaro do que gente... 

- Lá vem você e suas conversas estranhas. Chegue aqui, quero lhe abraçar novamente. 

Os pássaros cantavam e as folhas das castanheiras dançavam na brisa entrecortante. Olhavam-se, como se estivessem guardando aquele momento para a eternidade, sabiam que no mesmo dia se separariam novamente e cada um voltaria para sua vida. O reencontro embora fugaz, ressaltou o que já era anunciado: existia entre os dois oração silenciosa que os interligava permanentemente, quiçá por dores e alegrias ou mesmo pelo impossível. O que sentiam era forte, resistente. Não era amor de quarentena.