ação realizada dentro da programação

da SAUB - Semana de Arte Urbana do Benfica

em agosto de 2019 na cidade de Fortaleza.

Depois de nove dias busco responder tuas palavras...

e espero conseguir alguma coerência, pois os últimos dias sempre vem tomados de certa instabilidade e tensão (talvez seja o el niño à brincar com a natureza de todos). Meus olhos se enchem de lágrimas de novo ao ler teu email, pois temos nossa conexão e compreendo tuas palavras.

Tomamos essa decisão (cisão) de romper nossa relação, e talvez seja um equívoco, isso o tempo irá dizer. O coração grita sempre muito alto, mas as vezes está naquelas frequências mais baixas o que nosso corpo nos diz de mais importante e que tem a ver com a voz da intuição. A nossa dizia que devíamos buscar nossa reconstrução de forma solitária. São frequências que as vezes se sobrepõem, é certo que sim. O silêncio ajuda a identificar melhor a natureza desses anúncios. De nós pra nós mesmos. A presença do outro causa uma espécie de interferência na gente. Ontem fui tomado por uma super gripe que me deixou com 39 de febre e até no Pronto Socorro fui para ver se estava tudo bem. Mas o que realmente intuo sobre este fato é que quando a matéria/o corpo entra em turbulência é porque minhas ações anteriores não estão coerentes e de certa forma surge na cama um período de reflexão.

Hoje passei no cemitério e vi um enterro acontecendo. A relação era de um morto para uns cinquenta vivos presentes no local, e pensei nas conexões que fazemos na vida com outros seres, nos encontros. Sempre tento refletir a partir da tua percepção... e do que a vida está tentando me dizer através das tuas palavras.

Tenho pensado bastante na geodinâmica dos ventos, na relação que a temperatura tem com a curvatura do teu corpo quando brisa leve, maresia ou além-mar. Guardo um desenho que fiz de ti de costas, nu, sob a luz amarela e fraca do teu quarto que tanto nos abrigou, numa cama de solteiro e poucas cobertas pra tantos pés, e tantos sonhos e desejos, e parecia que nem era frio por que quando penso no inverno ao teu lado só consigo lembrar do calor das nossas camas, dos sorrisos e das lágrimas, sempre acalentadores no meio de tanto turbilhão. e o cheiro nos lençóis. teu cheiro. meu cheiro. suor de fazer amor, de pedalar, de correr atrás!

Voltar a esta casa, a beiramar, me faz pensar na dinâmica das marés, em nós, que somos tempestade em corpos d`agua (como dizia a Fernanda, num de seus postais) buscando inutilmente algum controle sobre nossa própria natureza, volátil. no final das contas somos apenas energia mesmo, vibrante, mas iludidos por uma ideia falsa de matéria.

Sinto falta de fundir nesse corpo e sentir a energia por de trás dele, como sempre foi desde o começo: muito além da pele, muito além do pêlo.

Pelas bandas de cá procuro me reconectar com aquela parte de mim que compreendia as forças que operam nos nossos sistemas moleculares antes de tentar padronizar tantas medidas. tentando me fazer palavra no mundo, escrever com meu corpo na ausência do medo de deixar-se levar pela correnteza ao mesmo tempo em que percebo na terra a possibilidade de que algo floresça. tenho avançado, embora lentamente, nos projetos de marcenaria, mobiliando aos poucos o novo apartamento.

construí uma luminária de pé, com algumas sobras de madeira, e a parte elétrica toda do começo ao fim. por conta daquele choque que entortou meu dedo quando criança, escolher os fios, as tomadas, tem sido tão desafiador quanto te escrever, como se tudo partisse desse pequeno fragmento de osso, desse pequeno fragmento de texto ou em direção a ele, que não possui muita linearidade, indicativo de começo ou fim, por que ao invés de fechar as palavras apenas sugerem novas aberturas.. o amor ensina sobre reconstrução.

Estamos aqui talvez pra isso, para aprender que essas moléculas que nos constituem são possibilidades infinitas de rearranjos. somos quebra-cabeças e na hora de tentar nos montar nos misturamos com as peças um do outro, e química quer dizer a possibilidade de renovação: de nós e do mundo, a cada instante.

Organizar, bagunçar, transformar, sentir frio, fervura, mas o medo vive dentro daqueles envelopes de cartas não enviadas por quem não sentiu o que a gente soube quando se tocou pela primeira vez e percebeu que havia mais energia que corpo ali. e somos juntos, nós dois, todos os elementos. não permita que meu excesso de terra te desabe completamente, existe um equilíbrio único no mundo onde as nossas salivas não inundam por que nossa respiração há de trazer leveza aos materiais mais brutos. e acima de tudo, obrigada por me ensinar sobre as propriedades fantásticas do fogo, de como queimar sem consumir-se por inteiro.

Há tantas palavras que gostaria de te dizer e não posso ou não consigo - por que me falta coragem e por que sei o poder que elas possuem de causar alterações estruturais no ambiente que só agora repousa na tua ausência. Não posso perdê-las, as palavras são muito caras a mim, e assim foram permanecendo aqui, armazenadas, se auto-organizando, havia muito espaço ainda para ser explorado internamente, mas o espaço externo respondia à leis opostas e parecia aumentar cada dia um pouco mais, num processo tão lento e sutil que apenas recentemente se deu em mim essa percepção.

Talvez o silêncio que deixastes no lugar das coisas que levastes embora intensifique o eco, e tem se tornado difícil me encontrar neste apartamento, imenso e labiríntico. O eco tem esse poder de confundir.

Eu costumava conhecer de cor cada arranhão de tinta na parede, mas as memórias dos móveis, dos pequenos objetos, dos livros, do cheiro de macella estão diluídas na imensidão que tomou conta desse lugar que não reconheço como meu.

Sinto a necessidade de organizar essas palavras amontoadas que agora já me ocupam quase por inteiro, e por isso pensei num projeto de móvel de fácil execução para que eu possa construí-lo, com diversos compartimentos. Inventariá-las parece a solução mais acertada, mas desde então já esbarro em alguma problemas de ordem prática, por que as palavras que eu não te dizia e foram se armazenado aqui já sofreram mutações. Passei a perguntar para algumas pessoas, amigos, conhecidos, o que eles faziam com essas palavras armazenadas neles. Eu precisava aprender também a calcular-lhes o peso, e para isso passei a estudar tanto as suas formas de auto-organização quanto os valores a serem considerados nessa equação.