BIANCA ZIEGLER 

Graduada em Artes Visuais Licenciatura pela Universidade Federal de Pelotas (2011-2014)

e Mestre em Poéticas da criação e do pensamento em artes pela Universidade Federal do Ceará (2015 - 2017). 

Criou, em 2013, a nadifúndio uma editora independente através da qual vem, desde então,

produzindo e pesquisando o campo dos livros artesanais, das publicações de artista e outros impressos, além de promover ações junto ao público, como proposições artísticas, ações educativas, oficinas e propostas de publicações coletivas. 

Vem desenvolvendo, desde 2015, uma pesquisa relacionada ao processo de escrita e de apropriação de fragmentos de textos - relatos, memórias, anotações em cadernos, agendas e papéis soltos, cartas e emails recebidos e enviados - que tanto norteiam quanto desenham os caminhos do pensamento e da criação de proposições artísticas em vídeo, fotografia, ação performativa, ação participativa e publicação. 

 

No projeto Você: Unidade de Medida, os textos e os trabalhos se constroem a partir da ideia do corpo enquanto unidade de medida e território de exploração, e tangenciam o pensamento sobre a experiência, o encontro, a palavra, o  e também sobre as ações que sugerem os verbos viajar, se apaixonar e publicar.

ESTUDO DE GEOMETRIA PLANA SOBRE SUPERFÍCIES MOLES, INSTÁVEIS E MONTANHOSAS

ação performativa + fotografia + publicação (2016)

Em janeiro de 2016 tatuei dois retângulos nos braços, medindo 4,5x9,5cm cada um. A proposta era inserir estas figuras geométricas de proporções simétricas no meu corpo e jogar com a impossibilidade de garantir a preservação dessa simetria e do próprio desenho original. Meu movimento deformava as figuras, que se alteravam também a partir das mudanças do meu tônus muscular. 

 

Realizei uma série de fotografias nas quais registro alguns desses instantes nos quais danço com meus braços. Essa série de fotografias foi organizada numa publicação intitulada estudo de geometria plana sobre superfícies moles, instáveis e montanhosas. A publicação possui um formato de sanfona, o que permite diversas configurações na disposição do conteúdo, de certa forma fazendo relação com as infinitas possibilidades de formar novos desenhos e novas figuras a partir do movimento dos braços. Além das fotografias, nas duas extremidades da publicação, estão dispostos os dois textos a seguir: 

 

desvio 

quando meu dedo torto deseja contrariar

a trajetória que teu indicador aponta como direção 

risco
é mergulhar de cabeça

e assim desenhar a queda em linha reta 

Os textos, dessa forma organizados, também remetem à uma espécie de glossário ou dicionário, nas quais geralmente uma palavra ou um termo vem acompanhados de uma explicação sobre seu significado.

S(I)ENTO 

ação performativa (2016)

O título joga com a possibilidade de leitura de duas palavras: “sento", conjugação do verbo sentar no presente do indicativo, e "siento" palavra que, quando traduzida do espanhol para o português, que dizer "sinto".

 

O trabalho consistiu em algumas ações, entre elas "remodelar" mobiliários que me deixavam ergonomicamente desconfortáveis para que se relacionassem de forma mais harmônica com meu corpo, além de criar estratégias para sentar mais confortavelmente. 

Ainda durante as aulas de mestrado, que aconteciam no campus ICA - Instituto de cultura e arte da Universidade Federal do Ceará, eu "caçava" no campus objetos que pudessem ser utilizados como descanso para meus pés, e que pudessem simular um aumento no tamanho das minhas pernas. 

Passei a realizar esses experimentos também em casa, onde possuía uma maior liberdade para redefinir objetos: cortar alguns centímetros dos pés de uma mesa ou cadeira, por exemplo. 

A maioria das roupas e dos mobiliários, para se adequarem ao meu corpo, necessitam de reparos. Para as calças é necessário a realização de bainhas. O problema com as cadeiras é mais complicado e por conta disso permanecer sentada por muito tempo sempre me foi algo bastante desconfortável. 

Para além da observação das relações entre meu corpo, arquitetura e design, passei a procurar também perceber de que forma meu corpo se relaciona com as formas orgânicas: árvores, pedras, areia. Na natureza de suas formas imprevisíveis e diversas, quem sabe eu não conseguiria encontrar conforto, encaixe, adequação ou pertencimento mais facilmente. 

 

S(i)ento joga com a questão da busca pelo conforto ou de uma forma de coexistência mais harmônica entre corpo e mundo, por meio dos objetos produzidos pelo homem e das formas produzidas na natureza.

 

Foram realizadas algumas fotografias nas quais registro a ação performática que consistiu na coleta e na escolha dos objetos que melhor se adequassem a um nível de conforto aceitável nos lugares onde sentei. Além disso, para cada situação, eu preenchia uma tabela com a natureza dos objetos, medidas de altura dos lugares de sentar e dos objetos coletados. 

MEDIDA DE RESISTÊNCIA

ação performativa + vídeopoema (2016)

Eu e minha irmã costumávamos disputar quem conseguia se manter por mais tempo sem perder o equilíbrio enquanto a areia afundava nossos pés na areia, logo depois da faixa onde quebram as ondas e a água encontra a areia fofa na praia, quando a maré está enchendo. Aprendi, ao lado de minha irmã, por meio dessa espécie de jogo que criamos, algo sobre paciência, temperatura, equilíbrio e exaustão. Depois de um tempo percebi que disputávamos mais com nosso próprio corpo do que uma com a outra, e o desafio dizia respeito à nossa capacidade de resistir ao movimento das ondas e às propriedades da areia que nos afundava lentamente. 

Realizei um vídeo que consiste numa imagem parada enquanto a câmera registra minhas tentativas de me manter em pé, enquanto meus pés afundam na areia. Realizo algumas tentativas e posteriormente anoto a quantidade de tempo de cada uma, registro em gráficos e calculo a média de tempo em que consigo manter o equilíbrio. 

A palavra resistência, segundo o Dicionário Analógico da língua Portuguesa: ideias afins / thesaurus, aproxima-se das palavras: reação, renitência, insubmissão, oposição, contraposição, contrariedade, choque, colisão, embate, encontro, conflito, enfrentamento, confronto, interferência, relutância, rebeldia, insurreição, greve, atrito, parede, recuo, contrapeso, oposição voluntária, repressão, obstáculo, firmeza, durabilidade, estoicismo. 

Enquanto verbo, resistir aproxima-se do sentido de ferir, ofender, ir ao encontro, reagir contra, conflitar, repugnar, rebater, opor-se, lutar contra, abrir conflito com. Medida de resistência anuncia questões que fazem relação também com as ações sugeridas por estes verbos, sobre o corpo que se relaciona, sobre o encontro, sobre fragilidade e resiliência e o corpo que se arrisca.

CORPO-BÓIA: MANUAL DE INSTRUÇÕES

videopoema + publicação (2016)

O trabalho consiste em um vídeo onde me proponho a ensinar o passo a passo de como boiar, ou de como utilizar o corpo como bóia através da respiração e de alguns movimentos com os pés e braços. O vídeo foi realizado de forma bastante amadora e procurava se aproximar do formato de muitos DIY que se espalham cada vez mais pelo canal Youtube. 

No vídeo apareço explicando alguns procedimentos relativos à ação de boiar, mas o som da minha voz é substituído por um texto poético sendo recitado. 

O PESO DAS PALAVRAS QUE NAO FORAM DITAS

ação performativa + publicação (2016)

Esta proposição artística foi realizada pela primeira vez na Praça do Ferreira, no centro de Fortaleza, em janeiro de 2017. Consistiu na montagem de um ambiente contendo uma pequena mesa e uma chamada escrita onde se lia “Calcule o peso das palavras que não foram ditas/ AQUI/ gratuitamente”, que convidava à participação.

 

O público era atendido por mim que, vestindo um jaleco branco, oferecia, a partir da fórmula matemática criada, o serviço de medir o peso das palavras que não foram ditas. 

Para a realização da proposta, criei um livreto, que foi impresso artesanalmente e utilizando materiais e uma linguagem visual bastante minimalista. Cada pessoa que participava da ação levava consigo o livreto. Para fins de registro e também para que eu pudesse posteriormente analisar o que foi produzido, criei uma tabela que ia sendo preenchida por mim ao mesmo tempo em que o livreto do participante. Esta edição denominei de edição infinita, criando uma abertura para que a ação possa continuar sendo realizada, remodelada, assim como o livreto, infinitamente, burlando a ideia de tiragem, que limita a publicação a ser produzida em uma certa quantidade pré- estabelecida. 

A proposta se baseava também em um desejo de produzir um livreto a partir da ideia de autoria compartilhada, na qual cada participante levaria pra casa um livro múltiplo e ao mesmo tempo único, já que os resultados obtidos nunca seriam os mesmos, pois o livro dependia da interferência do público para que se completasse.

 

O livreto funcionou como dispositivo que promove uma experiência, já que a partir dele se desenvolvia a conversa, que acontecia conforme seguíamos, eu e o outro que participava da ação, um caminho de pensamento sugerido pela publicação. 

Assim como as fórmulas matemáticas criadas, a ação não é pensada para que funcione a partir de um modelo previsto, e seu único princípio pé-determinado é de que se realize de uma forma indefinida e aberta. A proposta era inventar um espaço e uma forma de estar com o outro, de conversar, e que esta conversa e este “estar” fosse mediados por uma publicação. 

OFERTA OFERENDA

ação (2015)

 

 

O trabalho consistiu na inserção de alguns exemplares do livro-objeto lagrima de oro em prateleiras de supermercados, ao lado dos produtos comerciais, o que provocava certa confusão visualmente, já que a caixa de papelão destoa dos tons chamativos das embalagens dos produtos. 

Em segundo lugar esse estranhamento se dava pelo próprio produto que não pertencia àquele espaço, não possuía etiquetas, preços, ou código de barras.

 

A proposta não era acompanhar e registrar as reações do público diante do objeto, mas criar situações que pudessem provocar uma ideia de descontinuidade no fluxo de quem está no supermercado para realizar suas compras.

 

DEGUSTAÇÃO

ação performativa (2015)

 

 

 

Ação realizada em supermercados e espaços públicos como praças no centro da cidade. A ação consiste em apresentar ao público passante o livro-objeto lagrima de oro oferecendo as lágrimas para degustação, em pequenos copinhos de plástico, numa tentativa de imitar o modus operandi das convencionais degustações de produtos, que geralmente acontecem como forma de publicidade de produtos nos supermercados.

 

LÁ FORA O MUNDO AINDA SE TORCE PARA ENCARAR A EQUAÇÃO 

vídeo (2013)

Neste vídeo, a câmara conduz o olhar do espectador a acompanhar os pés de uma personagem que brinca com camisinhas cheias de ar, como se fossem balões, na tentativa de estourá-los. A ação se dá num ambiente carregado pelo abandono, no qual os elementos presentes parecem se confrontar: os pés descalços e frágeis contrastam com a sujeira no chão, a materialidade dos preservativos dá ideia, ao mesmo tempo, de resistência e fragilidade, os azulejos portugueses dividem espaço com fragmentos de concreto, tijolo, musgo e pichação. 

PROCURAMOS PESSOAS COM HISTORIAS PARA CONTAR

ação (2012)

Neste trabalho, feito em parceria com o artista Gustavo Reginato, a proposta era ficarmos por dois dias consecutivos sentados em um banco na praça Cel. Pedro Osório, a fim de conversar com alguns dos passantes.

 

Utilizamos como dispositivo um cartaz que continha os dizeres: “Procuramos pessoas com histórias para contar”, e que deixava clara nossa intenção de estabelecer este contato, nos mostrando disponíveis a escutar suas histórias.

 

Enquanto escutávamos estas histórias, procurávamos registrá-las por meio de texto e desenho.

NO ACHAMENTO DO CHÃO TAMBEM FORAM DESCOBERTAS AS ORIGENS DO VÔO

intervenção urbana (2012)

Procurando me familiarizar aos poucos com a cidade onde havia ido morar recentemente, para me sentir mais segura, e em decorrência da onda de assaltos ocorrendo à época no bairro onde eu morava e estudava, decidi realizar pinturas no chão das esquinas da quadra que comporta o prédio do Centro de Artes, com desenhos que lembram as silhuetas que demarcam os corpos após os assassinatos. Estes corpos, em posição fetal, por outro lado, também remetem à ideia de nascimento. Os textos escritos no interior destas silhuetas são trechos de conversas que tive com as pessoas que conheci quando me mudei para Pelotas e que compartilham do meu sentir-me estrangeira e expressam o sentimento de estar distante da família, dos amigos e a necessidade constante de pertencimento. 

* OS TRABALHOS EM LIVRO BEM COMO OUTROS TRABALHOS REALIZADOS PELA EDITORA ENCONTRAM-SE APRESENTADOS NOS LINKS PUBLICAÇÕES E AÇÕES/PROPOSIÇÕES DESTE SITE