Antonio Neri

HISTÓRIA DE UM AMOR DO PRÉ-VESTIBULAR

Universitário e filho de pais analfabetos, Antônio Neri é um autêntico sonhador. Com vinte e poucos anos, busca com intemperismo da vida, traduzir meus sentimentos para meus textos. Escritor nas horas vagas e amante da natureza, sua pele bronzeada de sol e sal  entrega sua paixão secreta: O mar. 

 

Instagram

Era mais um dia comum no Pré- vestibular. Eu como sempre, todo suado de subir correndo as escadas para não chegar tarde, acabo assanhando o cabelo. Chego na sala e vejo aquele menino que quando fala comigo é como se os anjos cantassem, seu nome é Guilherme. Ele é a razão de minhas calças ficarem cheias e minha pele arrepiar com seu toque. Sempre o olho com carinho e desejo, mas falta-me a coragem de dizer o que sinto. Todo mês tem um simulado aos domingos, mas esse vai ser diferente, por que depois do simulado a minha turma vai toda pro cinema. Seria essa a minha chance de beijá-lo no escuro do cinema? Fico pensando quantas pessoas vão e se, de fato, ele é gay ou não. Sou aquela pessoa que é amigo de todos, então fica mais fácil sondar tudo. Me aproximo da amiga dele, Paula, e jogo o verde para saber se eles vão juntos e se ele tem alguma coisa com ela, ou se vai levar alguém por fora. Hoje ainda é terça feira e eu já estou a todo vapor para saber de tudo.

 

Ela me diz que ele vai sozinho, que é solteiro mas que é afim de uma pessoa aqui da turma e vai falar com a paquera dele essa semana. Meu coração se enche de esperança, porque a gente sempre troca olhares na sala e já peguei ele várias vezes olhando na minha boca enquanto falo. A aula começa e o Gui entra na sala junto com o professor e ajuda-o a montar o equipamento de projeção de slide. Entre todas as cadeiras, ele senta ao meu lado. Começo a ficar vermelho e não consigo nem olhar diretamente para os seus olhos. Não poderia ser outra coisa, ele iria tocar no assunto do cinema de domingo. O Professor apaga a luz e começa a falar sobre o modernismo e diz que vai passar um curta metragem. Todos em silêncio. Gui quebra o silêncio sussurrando: " Ei, a gente pode conversar depois da aula?", eu fico paralisado, mas é como se tocasse no fundo a música Mystery of Love do Sufjan Stevens. Eu respondo que sim. Meu coração começa a encher de esperanças, sinto pulsá-lo mais rápido, minhas veias parecem se encher cada vez mais de sangue, me sinto imortal.

 

Ele continua ao meu lado, eu fico pensando o quanto deve ser bom beijá-lo, sentir seus músculos, seu peito, sua barba. Não consigo me concentrar em mais nada, ansiedade é pouco para o que eu estou a sentir. As aulas passam tão lentas que parece que a semana toda se condensou em apenas um dia. Aula acabou, me despeço de todos mas continuo na sala, Guilherme faz o mesmo. Quando toda a sala está vazia ele começa a falar. " Pedro, você deve já ter notado que eu sou gay e eu sei que você também é. Você já deve saber que domingo depois do Simulado vamos pro cinema né? Então queria perguntar para ti como eu faço para chegar no Denis? Queria muito que ele fosse comigo e como você é amigo de todo mundo aqui, queria te pedir essa dica."

 

Meu mundo cai. Mais uma vez o destino prega peça em mim. Óbvio que ele não gosta de mim, agora putz grila, eu tenho que ajudar ele a chamar o menino para sair com ele? É demais para mim. Ele fica parado esperando eu responder, e eu sem voz, ainda tentando compreender tudo. Ele fala: "E aí Pedro? Me ajuda pow". Eu ajudo ele a escrever uma mensagem para o Denis no direct de uma rede social. Nesse momento eu só consigo pensar o quanto eu sou besta. Fico triste mas não deixo transparecer pra ninguém. O Denis vai com o Gui pro cinema e eu invento qualquer desculpa pra não ir.

 

Eles, na segunda feira, começaram a sentar juntos e fazer coisas de casal, no fim do ano, no aulão para Enem, subiram no palanque do auditório para agradecer ao cupido por tê-los unido, agradecendo e falando palavras bonitas. Eu estava muito triste e só queria chorar. Me emociono, não com a homenagem, mas por ter ajudado o homem da minha vida a namorar com alguém que não sou eu. Parabéns para mim, o super trouxa. Pelo menos passei no Enem. Sorte no jogo, azar no amor!