Jorge Rein

FORA O MOTORISTA E O COBRADOR, O RESTO É PASSAGEIRO

Contista, poeta, dramaturgo e tradutor. Nascido em Montevidéu, Uruguai. Residindo em Porto Alegre/RS desde 1971. Alguns livros publicados, textos premiados e/ou encenados n o Brasil e no exterior. Redator de conteúdos poéticos no site infantil Canto dos Mafagafos.
 

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Marcamos um encontro no café do museu. Sou tão assíduo que já consto no acervo. Quando Vânia chegou eu devia estar no meu terceiro expresso. Pedi um cappucino e ela aceitou com naturalidade o galanteio de eu lembrar dos seus gostos depois de tanto tempo. Rimos um pouco, desconfortáveis como dois esquecidos namoradinhos de praia que o acaso faz coincidir numa esquina da cidade no inverno, amáveis inimigos pelo avesso, carecas de saber que não pode dar certo. Pensamos em jogar “o amor é cego”, como a gente fazia em outros tempos, mas nos sentimos velhos. Então paguei a conta porque, eventualmente, ainda sou um cavalheiro.
 

Saímos e na praça o frio rachou os nossos crânios com trépanos de gelo enquanto que a poeira, na carona do vento, nos mostrava as vantagens de ser cegos. Em emergências climáticas de tal envergadura, é um crime hediondo não abraçar o parceiro. Ante a força da lei, nos submetemos. Faltou um passo até o beijo. Nós o demos. E mais teríamos andado, não fosse ainda tão cedo. Então pegamos o primeiro ônibus que atracou naquele ponto do deserto. Não interessa o destino, nos dissemos. Não interessava mesmo. A urgência era trocar as intempéries pelo aquecimento, partilhar confidências, talvez amenidades e também sacolejos. Por que não? A vida é assim mesmo.


–Estás namorando alguém?


Aconteceu na hora um solavanco salvador, um guincho, uma freada brusca e o cheiro dos pneus derretendo suas digitais no asfalto. O motorista abriu a janela e despejou seu verbo de paralelepípedos no para-brisa de um caminhão que se atravessara. Após a usual troca de cumprimentos e das lembranças às respectivas genitoras, a viagem continuou.
 

Ficamos em silêncio, mas nos demos as mãos e eu não lembrei Miranda. Bom sinal. O ônibus deixou a avenida principal e embrenhou-se em ruazinhas secundárias que eu nunca tinha visto. Fiquei desorientado. A sensação não é ruim. Me entreguei ao motorista, que talvez ainda soubesse por onde devia ir. Um motorista de ônibus é um pouco como um deus. O corpo de Miranda tremeu ligeiramente encostado no meu. Perdão, era o corpo de Vânia... Acho que recaí.

–Fim de linha! Destino!– berrou o motorista, como se acreditasse naquela história de ser quase que um deus.


Não precisava ser tão literal. O ônibus estacionou na frente do portão de um cemitério. Passeamos entre os túmulos, profanando as mensagens doídas dos epitáfios como se fossem inscrições de banheiro ou frases de para-choque de caminhão. Até a letra morta é alimento. Todo escritor tem algo de urubu. Vânia andava ao meu lado. De repente parou e me encarou.
 

No caminho de volta me prometeu silêncio. Seria um segredo apenas entre nós. Levei-a até o meu apartamento. Não que tivesse qualquer obrigação. E então fizemos sexo, ou tal vez fosse amor. Às vezes a miopia da gente não distingue. Pensei enxergar o sorriso de Miranda desenhado nas volutas de fumaça do cigarro que acendemos no após. Era pura ilusão.