Cláudia Albuquerque

CINCO MINUTOS NA VIDA

“Faz as malas, fugimos hoje”, dizia a primeira frase do bilhete elaborado com ousadia. Não, ele não a inventou. Viu numa camiseta e considerou adequada ao caso. A menina poderia achar engraçado. Será? Só conversara com ela por cinco minutos. Claro que seria mais fácil mandar um WhatsApp, mas preferiu uma carta, essa coisa antiga, espetaculosa, melodramática, quase cênica. Na primeira oportunidade, escondeu o envelope entre os livros dela, bagunçados sobre a mesa. No fim da aula, ao enfiá-los na mochila, a garota não se deu conta de que algo voou baixinho, caindo a seus pés, um pássaro raro. Nem ele percebeu qualquer movimento, nervoso que estava em vigiar o entorno.

Cinco minutos. O suficiente para achar que nunca mais dormiria, perturbado pela simples existência dela. O que se pode fazer em cinco minutos? Um ovo cozido. Uma tapioca na manteiga. A leitura de um poema. Duas músicas, se não forem longas. Um banho, pratos lavados na pia, um café. Um pacote de batata frita sabor calabresa, pra ele, durava exatos cinco minutos.  Em cinco minutos se cansava da meditação guiada, assim como do vício de abrir o Instagram. Um diálogo com muitos posts. Incontáveis tweets. Um cochilo? 100 piscadas, 20 por minuto. 

Em 1855, um homem se atrasou cinco minutos e perdeu o ônibus. Quando subiu no carro seguinte, conheceu o amor de sua vida, Carlota – Cinco Minutos é o título desse livro, que ele sabe que ela nunca leu. Um carro é roubado a cada cinco minutos no Brasil, mesmo tempo em que 270 pessoas caem em golpes digitais. Com os gigantes acontece o mesmo, a popa do Titanic afundou em cinco minutos. Sim, aquele filme é uma falácia, foram só cinco minutos. Em menos de um segundo, nosso cérebro é capaz de julgar se uma pessoa é digna de confiança. Em um quinto de segundo, podemos nos apaixonar. É assim mesmo, como um desastre, como o pensamento, um “oi”. 

Não, ele ainda não sabe e nunca saberá. Naquele dia, quando a turma saiu em debandada e a faxineira varreu a sala, o bilhete fujão encontrou o mesmo destino de todas as juras de amor, próprias ou copiadas: o lixo. A garota jamais entendeu aqueles olhares expectantes e ansiosos por trás dos óculos quadrados. E a ele, neófito nas batalhas íntimas, resta apenas o consolo de pensar que ela não sabe, ela não faz a menor ideia do quanto valem cinco minutos na vida.