Yasmim Uehara

CARCAÇA DE PRÉDIO

Yasmim trabalha com vídeo e acredita que a poesia é uma forma de resistir à atual tentativa de implosão das linguagens.

Em alguma das primeiras vezes que olhei pro céu da minha rua nova, queria ter dito: “se a Terra fosse invadida por ETs, certamente, o ovni passaria sob as nossas cabeças e faria uma curva ali por entre aqueles dois prédios”. Mas era meio óbvio que eu não tinha acesso a você e nem a possibilidade de te dizer coisa assim, já que tinhamos nos afundado em silêncios e inauditas ofensas há algumas dezenas de meses- quantos?- e naquele março eu até me sentia bem na pele de uma alma solitária ouvindo anthena 1 esparramada no chão da minha casa. O medo de invasão alienígena ficava tão lá no alto e era só mesmo pra fazer graça. Eu já não sentia aquela tímida ânsia (que doía entre os dedos).

O que dificultava um pouco, chegando a doer a cabeça, era o esforço que seria descrever a trajetória do projeto de disco voador invisível com a mão, até sugerir a qualquer pessoa que não fosse você, olhar pra cima. Acabei dizendo quieta pra mim mesma, da janela “é por causa daquela carcaça de prédio em arquitetura futurista, né? Deixa um futurismo interessantemente datado”. A gente, às vezes, usa grande parte da nossa vontade pra transformar a solidão em algo mais ridículo do que é. Por mais que aquele tipo de sono faça a gente acordar suado, eu ainda estava na minha sala. E o silêncio já não era mais uma lança (que eu cortaria entre os dedos).

 

Era ainda com um pouco de sangue que me custava escrever isto:

O dia que eu perdi o ponto de ônibus e você foi me buscar foi quase a última auto humilhação que me infligi. 

a última auto humilhação que me infligi.
 

(escrever e apagar algumas quinhentas vezes)

 

E depois isto:

Ás vezes os esforços são vãos.

 

Só marquei as extremidades das palavras em água suja e elas escorreram.

 

Por fim, não escrevi, mas me esforcei pra guardar como uma lembrança:

Quase todas as vezes precisa somar a contemplação das pequenas cordilheiras de assombros pessoais vespertinos ou diurnos à vertigem que chega da luz reverberada na carcaça de prédio, que me faz tremer toda e sentir viva. E nada se junta ou explica:

 

CORAGEM