Maísa Martins

CALCIFICADO

É engraçado como agem os hormônios na adolescência ( creio que sejam eles os responsáveis), pois, eu sempre estava atraída por alguém. Não me lembro de um período sequer, naquela fase, que eu tenha sido feliz sozinha. Sempre havia um amor não correspondido, uma paixão que nascia a partir de uma cruzada de olhares, de um cheiro... 

 

Porém, um dia o vi saindo do curso de inglês e pronto. Todos os dias seguintes esperava ansiosa que um dia nos cruzássemos, que um dia ele reparasse que estamos ouvindo a mesma música. Mas, esse dia nunca chegou. 

 

Nessa rotina, cada vez mais, eu me convencia de que tínhamos sido feitos um para o outro. No entanto, ele não enxergava. Como podia não enxergar? Como se atrevia a não enxergar? Como, apesar de todos os meus esforços para que ele me notasse, não me escolhia? Eu seguia acreditando e desacreditando nessa história o tempo inteiro. 

Então, eu vivia nesse ciclo. Sempre colocando e tirando outras pessoas em meu coração, enquanto a imagem daquele menino ia calcificando em suas paredes. E mais calcificado ele se tornava a cada nova tentativa de fazê-lo perceber que me amava. 

 

A verdade é que eu nunca o esqueci. De tão calcificado, ele tornou-se uma pedra pesando constantemente. Como aquele pedregulho dentro do sapato que te incomoda, mas que não te impede de caminhar. Por vezes, não noto sua existência. 

 

Outras vezes, ele toca em um ponto sensível e me dói. Por que me lembrei disso hoje? Pergunto-me. Talvez porque tenha sido confrontada a pensar na ideia do amor da minha vida. Embora eu discorde bastante do conceito, tentei pensar em alguém que poderia ser considerado o amor da minha vida até agora. E dói imaginar que talvez seja ele o que mais se aproxima disso: essa pequena pedrinha pesando em meu coração. 

 

O amor da minha vida seria então essa imagem forjada pela mente cheia de hormônios de uma adolescente. Um sentimento nutrido por uma pessoa que nunca existiu de verdade, só a sua versão física. O amor da minha vida, afinal, seria uma mentira que eu contei a mim mesma.