Maria Alice Zocchio

FIO-DENTAL

Nasceu em São José dos Campos- SP em 1961 e se mudou para São Paulo com 4 anos de idade. Desde então, nunca morou em outra cidade.  Estudou Jornalismo e depois Letras.  Seu trabalho por mais de 30 anos foi como professora do Ensino Fundamental II  em Escolas Públicas.  Tem dois filhos. Ela jornalista e ele também jornalista. Escrever parece ser um gosto de família.  Sempre escreveu, mas passou a ter mais disciplina depois que se aposentou. Costuma criar crônicas, micro-contos e contos.  Arrisca alguma poesia, mas não se vê poeta

Puxei o último pedaço de fio dental e o carretel girou vazio. Com Mauro, já teria acabado. Ele costumava arrancar longos pedaços e, depois de usar, jogava no vaso sem temer entupimento ou se importar com a repulsa que o hábito me provocava. Vinte dias para o fim do único objeto que ficou fora das sacolas, esquecido na pia do banheiro. Camisas, meias, cuecas, um desodorante, nenhum shampoo, aparelho de barba, nenhuma espuma, nenhuma loção, sapatos, mais roupas, sacolas, os poucos livros e os muitos cds e o remédio da pressão. Só esqueci o fio dental. A marca que ele queria e eu comprava. Fiz bem em suportar só mais uma noite de abuso, ronco e Domecq.  A discussão transbordou no café da manhã quando servi em pratinhos os prints das mensagens com Yolanda e fiquei satisfeita ao vê-lo, esgotado de evasivas, fugir para o trabalho. Descartei a embalagem, escovei os dentes e saí. Vinte dias desde que aluguei o depósito na Goodstorage de Pinheiros.

 

Conferi os dados do contrato ao som de uma ária que nutria, ainda mais, o meu drama. Descobri a que serviam os prédios que se multiplicavam pela cidade oferecendo boxes. Gostava de pensar que eram containers para guardar drogas, armas e corpos. Depois das mensagens, iam guardar todas as sacolas e os dois mil cds que, por sorte, ainda estavam encaixotados. Ópera? Uma empresa de locação de boxes tinha que ter drogas, armas e corpos.  Descarreguei todo o carro com a ajuda do recepcionista e, no elevador, a caminho do box 293, perguntei sobre a música.  “É Un Bel Dì Vedremo – Ato 2 – Madame Butterfly. Do meu Deezer”. Olhei com mais atenção o homem de uniforme refletido no espelho e a mim, abatida e sem um brinco. Olhei de novo.  Eu, a gueixa. Ele, o tenente. Ambos no Japão. A viagem durou dois andares, um labirinto de corredores e mais um box de tralhas. Gueixa nunca mais.

 

Fechei a sombrinha, guardei na bolsa e entrei.  Dei de usar sombrinha. Vinte dias.  Vinte dias do aluguel do depósito, da ária que baixei no celular e da viagem no elevador. Butterfly vendo navios. Vasculhei as gôndolas de sabonetes, desodorantes, shampoos e fui interrompida antes que a visão dos antiácidos me lembrasse os Domecqs. “A senhora é cadastrada?” Tirei os fones do ouvido. “Sou sim. Mas só quero um fio dental”.