Marcelino Junior

TERREMOTO

Marcelino Júnior  é jornalista e escritor cearense. Possui uma trilogia editada, chamada Saindo do Casulo, sobre bullying. Está finalizando seu quarto livro: Ferro, ferrinho, ferrão, uma fábula sobre o mal que a vingança pode trazer. Ama a literatura, a natureza, os bichos, e todas as formas que o amor se revelam para nos ensinar cada dia mais sobre ele e o mundo ao redor.

Acordei com o barulho da TV sintonizada em um canal de jornalismo qualquer. A cabeça parecia um aquário, com peixes dourados nadando de lá para cá balançando meu cérebro aquoso, naquele momento de ressaca e dor, de roer o cotovelo. O Jornal anunciava as notícias esmaecidas do final daquele dia. Era 4 de novembro de 2019. Não tem como esquecer aquela segunda-feira. Na escalada do noticioso, a atualização sobre os efeitos do tremor de terra que atingiu em cheio a região central do Chile, com magnitude de 6,1. Esse e outros fatos, abririam aquele bloco, logo depois da propaganda.

No meu noticiário pessoal, apenas uma reportagem seria apresentada de cabo a rabo, naquela noite vazia, de ressaca moral. Tropecei nas garrafas caídas no chão. Porra! A sala está um lixo. Rastejei até o banheiro e coloquei a cabeça debaixo do chuveiro. Relaxei um pouco, apesar da dor lancinante, e me arrisquei a entrar debaixo d’água. Os pensamentos fluíram, e lembrei da madrugada anterior. Da milésima briga, por conta dos meus ciúmes; das palavras duras que atiramos, um contra o outro, e o fim, de-fi-ni-ti-vo, nesses 11 meses de intenso convívio.

Me enrolei numa toalha, penteei os cabelos e me olhei no espelho, com um certo contragosto, é verdade. Medo de encarar a mim mesmo, com os olhos inchados de chorar, e já quase lúcido, sem o efeito fantasioso do álcool. A cara, parecia a de um peixe, daqueles esquecidos num balcão de mercado, à espera de um qualquer que o trate com atenção, e o leve para casa, enroladinho num saco; mesmo que seja para a panela. Bon appetit, eu diria, já que vai mesmo me comer. E que seja uma experiência magnifc, ao descer boca adentro. Viajei!

Na sala, o telefone tocava pela enésima vez. Não era ele. Era o chefe ligando da redação em busca de alguma repercussão do abalo sísmico sentido na capital chilena. Queria que eu tentasse o contato com um casal da minha cidade, que agora morava em Santiago. Eu intermediaria uma conversa entre os familiares locais. Dei um perdido e desliguei, naquela segunda-feira oca de ânimo para qualquer trabalho. Que idiota eu sou. Claro que não poderia ser ele. Ainda mais, depois do fora que me deu, por conta das novas injúrias improváveis, da troca de murros, e de levar o que era dele, além de sequestrar a Maritza, nossa filha felina, depois daquele terremoto. 

Mas naquela segunda-feira, eu ainda pensava sobre o abalo que eu provoquei. O que destruiu nossas vidas. Desmantelou nossos sonhos. Rachou toda e qualquer possibilidade de retorno ao que éramos, ao que queríamos ser. No meu jornal atrasado, onde eu rememorava as notícias da noite anterior, ainda tentava dar alguma ordem aos fatos, colocá-los em blocos de relevância. Mas a cabeça rodava, e o relaxante muscular demorava a fazer o efeito desejado: aquele de apagar tudo feito borracha. Abri mais uma cerveja e chorei, copiosamente, enquanto os apresentadores se despediam com seus sorrisos de marfim, e me dizia em uníssono: Boa noite!